terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Predestinação



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Notícia: A cada 50 mortes no mundo por raios, uma acontece no Brasil
Fonte: R7
Data: 15/01/14
Nível do conto: 3
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O sonho de Marcus foi, literalmente, claro como um raio. Ele acordou apavorado.


Desde criança, teve razões para não duvidar dos presságios que lhe aconteciam enquanto dormia. Viu sua avó se despedir antes mesmo que o pai dele recebesse a notícia do hospital. Soube que um primo capotaria o carro sem que o garoto tivesse tirado o carro da garagem ainda. Era um dom. Ele sempre se antecipava dos acontecimentos. Mas cresceu com uma covardia estranha de não querer interferir no percurso do destino. Apenas dava pequenos sinais que ninguém se importava. No dia da avó, por exemplo, pediu ao pai que ligasse no hospital para ter a notícia que não seria novidade para o menino. No dia do primo, o aconselhou que tivesse cuidado com as curvas. Porém, suas sutís interferências não causavam impacto. Sofria com isso, mas poderia ser pior se descobrissem que ele era uma aberração. Além disso, se evitasse o pior, assumiria a fatalidade pra si? Ele não queria pagar para ver e foi crescendo às sombras de seu mundo estranho.


Naquela tarde, com o olhar se acostumando à claridade, foi até à janela para ver o céu e percebeu as nuvens carregadas. Não sabia por quanto tempo havia dormido após o almoço, mas foi tão profundo que acordou sentindo como se tivesse dormido por dias.


Estava um pouco confuso se a trovoada que o fez acordar havia sido real. Nos últimos tempos, Marcus começava a confundir a realidade no presente com as possibilidades do futuro que ele profetizava. Era demais para um garoto de vinte anos, que ajoelhava todas as noites pedindo aos deuses que fosse um jovem normal.


Repentinamente, aquele estalo de trovão o fez lembrar do pesadelo…


De um lugar alto, podia assistir aos seus pais e irmã correndo por um campo grande e cercado que os impedia de abandonar o lugar. Tudo estava tomado pela lama causada por um temporal assustador. Só não estava um breu devido às luzes dos raios. Marcus, aflito, gritava, mas ninguém o percebia alí. Ele também não conseguia se aproximar. Apenas observava os corpos agitados de sua família que se chocavam enquanto corriam desgovernados. Chorava. Sua irmã era tão pequena e frágil, a mãe mal tinha forças para escapar das poças de barro devido ao peso de suas pernas que a afundavam e o pai correria sem saber a quem iria tentar proteger. O raio que atingiu o campo aterrorizou o garoto. A luz foi forte e não pôde ver nada, mas sabia que havia atingido alguém. Como acordou em seguida, ficou sem entender o que tudo aquilo representava.


Marcus sacudiu a cabeça tentando livrar-se da tensão e saiu do quarto procurando pela mãe. Um abraço dela resolveria tudo. Na cozinha, encontrou um bilhete.


“Filho, vou passar no mercado e depois busco sua irmã na escolinha. Vamos ver seu pai jogar com os amigos. Se chover, coloca o Thor pra dentro. A mãe te ama!”



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Uma nova trovoada estremeceu Marcus. A chuva começava a cair e ele não conseguia segurar o pavor que sentia ao relacionar o sonho com aquele recado da mãe. Correu para pegar o telefone. Ele precisava fazer alguma coisa. Passou a vida com medo de seu dom, mas estava na hora de encarar. Ligaria para os pais, contaria sobre o presságio e todos poderiam se… “Não! o telefone tá mudo…”


Marcus deixou o aparelho cair no chão e foi em busca de seu celular. Não encontrava. Talvez não pudesse mesmo encontrar um palmo diante do seu nariz devido ao desespero. Só havia um jeito. Ele precisava encontrar a família.


Se pelo menos o pesadelo tivesse lhe revelado o que acontecia, saberia quem estava em real perigo. Não dava tempo para deduzir. Ele saiu descontrolado mandando o destino pra puta que pariu.


O primeiro insight de Marcus foi correr até a escolinha da irmã. Se a mãe ia ao supermercado antes, então talvez ainda não tivesse encontrado a filha. Mas, chegando lá, a diretora informou que, pela falta de luz, acabou dispensando a menina e entregando-a para a mãe que havia passado por alí minutos antes.


O corpo dele estava quente. Corria sentindo o peso da roupa molhada e a força da pancada de chuva que despencava. Procurava se concentrar para ver se lembrava de mais alguma coisa do sonho. Estava com ódio por não conseguir decifrá-lo. Nem percebeu o percurso que precisou seguir até que chegasse no campo em que seu pai costumava jogar bola.


Chegando no portão do campinho, se deparou com o lugar vazio. O jogo não havia acontecido. Marcus, enfurecido, deu mais uma apertada de passos até chegar ao centro do campo. Foi alí que a sua revolta chegou ao ponto máximo de descontrole. Abriu os braços e gritava pedindo aos deuses que o matasse.  Se não podia salvar a família, que o raio o atingisse e acabasse com aquilo. Chorava enfraquecido e vencido. Demorou até perceber que era em vão. Não cabia à ele escolher um destino. Era o destino que lhe dizia como queria que as coisas fossem.


O rapaz voltou para casa cambaleando desnorteado. Ainda chovia e não havia sinal de que o tempo fosse melhorar. Quase próximo ao seu muro, viu o carro de seu pai parando. Estavam todos alí! A mãe, a irmã e o pai… Marcus paralisou as pernas e o coração apertou no peito. Não poderia diferenciar alívio da felicidade. Quase que em frações lentas de segundo, viu um raio rasgando o céu e gritou arranhando a garganta. Após o clarão, do relâmpago, ele fechou os olhos e foi se aproximando por instinto. Já estava no quintal de casa quando começou a recobrar os sentidos e entender o que havia acontecido. Olhou ao redor, viu a família em pé e encharcada. Todos mantinham uma expressão de pavor congelada no rosto . Ele abaixou a cabeça e viu o seu cão caído, entendendo a reação dos demais.


O pai se aproximou do animal para examiná-lo e gritou para que a mulher voltasse ao carro e pegasse o celular para pedir ajuda.
Marcus conduziu a irmã para dentro de casa pensando nas palavras que pudessem dar-lhe algum conforto. Ainda não sabia se Thor conseguiria escapar da fatalidade. Enquanto secava a menina, se deu conta de que havia saído tão alucinado de casa que esqueceu de colocar o cachorro pra dentro conforme a mãe orientou no bilhete.

Naquele momento, ele não estava mais tão certo se continuaria a dar todo o crédito dos fatos à tirania do destino. Mais uma vez, preferiu reprimir seu dom.


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